Se há uns anos me perguntassem "pequena MJ, o que
pensas sobre a indumentária ser adequada ao local de trabalho?”, eu prontamente
responderia “Um perfeito disparate! Para o hospital irei eu, uma t-shirt e umas
all stars (ainda que todas fanadas) ”. Se repetirem a pergunta hoje
a resposta será, necessariamente, diferente. Se podem pensar “Olha-me esta, armada
em snob!”… poder, de facto, podem,
mas deixem-me explicar antes de carregarem na cruzinha do canto superior
direito. Imaginem, num dia corriqueiro (daqueles com nuvenzinhas no céu,
temperatura amena, passarinhos a cantar e em que, das duas uma, ou governo
decide cortar aqui ou ali, ou sobe a gasolina, o gasóleo ou até mesmo ambos)…
inspira, expira, volta a inspirar… estão todos no cenário? Prosseguindo… num
desses dias, têm que ir ao banco negociar um empréstimo, perceber porque é que
têm menos "x" na conta ou recuperar uma password perdida. Entram e aparece o
vosso gestor de conta exibindo uma t-shirt da Sagres,
calções de banho às florzinhas e Havaianas
nos pés (a publicidade é absolutamente fundamental para tornar a coisa
realista). Tratam dos vossos assuntos e dirigem-se ao café mais próximo onde,
rapidamente, aparece um empregado de mesa de fato impecavelmente engomado,
gravatinha e sapatinho de verniz. Na televisão surge um ministro, de fato-macaco (tipo mecânico, não literalmente de macaco, mentes terriveis!), anunciando uma medida benéfica, não se sabe bem é para quem. Porque o garçon é desastrado, entorna o chá a
escaldar sobre vós, vão até ao hospital e, a enfermeira da triagem, aparece de
botas de biqueira-de-aço (e atenção que eu já fui menina de usar o dito
calçado), calças esburacadas e dez piercings
em cada orelha. Se são menos profissionais por isto (o rapaz do café não conta)?
Não. Se o seu trabalho é prejudicado pela vestimenta que ostentam?
Provavelmente não. Se temos clientes, doentes, alunos, cidadãos, etc., igualmente
satisfeitos, confiantes nas capacidades e prestação de serviço? Pois… a meu ver
também não. (há estudos sobre a "coisa" que o confirmam!)

Agora, qual progenitor preparado para deixar o rebento fazer
qualquer coisa que ele quer muito, vem o mas. Pois, está tudo muito bem e a
roupita até desempenha, a meu ver, um papel importante MAS, debrucemo-nos sobre
o novo regulamento, recentemente aprovado, de um certo hospital, mais
particularmente na parte referente ao “Fardamento e regras de conduta dos
colaboradores” onde podemos ler: “assistentes técnicos, assistentes
operacionais, enfermeiros e técnicos do sexo masculino têm de usar sapatos
clássicos pretos ou azuis-escuros, cinto azul-escuro ou preto (de acordo com os
sapatos) e meias azuis-escuras lisas ou pretas lisas”. Não é por mim, que até
gosto de coisinhas a combinar, agora, homens deste hospital, de “barba rija e
pêlos no peito”, prontinhos para todas estas preocupações estéticas (já para não
falar que a barba, ainda que rija, tem de estar aparada!)? Não contentes, e
porque o sexo feminino tinha que estar, também, metido ao barulho: “as meias de vidro devem ser da cor da pele
(nem muito claras nem muito escuras), lisas, sem redes ou fantasias”. E, se no
inverno estiver frio, podem usar um “colanzinho” de lã? No mesmo documento são
também abolidos pastilhas elásticas, óculos de sol, camisas para fora das
calças, calças sem cintos, sapatos com saltos superiores a quatro centímetros
(será que haverá excepções… tipo pessoas com um metro e meio?) e outras coisas
que tais. Certo é que se trata de um hospital gerido por uma sociedade privada.
Certo é, também, que não deixa de ser um hospital público onde trabalham
pessoas e não robôs! Certo é que, o dito regulamento, tem algumas medidas positivas relacionadas com
as unhas femininas no que concerne à propagação de infecções. Agora, o que é
que um sapatinho castanho tem a ver com o caso? Desde quando é que um “gancho
de bijutaria” (seja lá o que isso for), prejudica o desempenho de alguém? Há o
oito e o oitenta. Há a liberdade individual e a imposição injustificada. Há o
fulcral e o ridículo.
MJ.