Hoje vamos voltar às coisas da saúde porque eu sei que já têm saudades de ler sobre a minha vida enquanto projecto de médico. A menina, ainda um bebé nestas lides hospitalares, tem-se deparado com um rol de situações que fazem as delícias do seu lado mais humorístico. Não estou, obviamente, a falar das “maleitas” que atacam os doentes com quem me cruzo nem dos seus problemas… trata-se da comunicação entre a “doutorazinha de catorze anos” ou “a netinha que eu gostava de ter”, como já fui apelidada, e os “meus” doentes. De facto, muitas das vezes é um verdadeiro quebra-cabeças decifrar o que nos querem transmitir. Os aparelhos genitais constituem o exemplo mais flagrante, tal é a panóplia de denominações que conseguem surgir numa conversa em que o tema é abordado. Os nomes das doenças (“diabretes”, “cancaros” e muitos outros) são também alvo de “renomeações” muito criativas.
Uma outra situação interessante é quando tentamos
averiguar a causa de morte de familiares. Ao que parece, antigamente era
frequente morrer por se ter o diabo no corpo ou por ter visto o
diabo (ao que parece um senhor morreu de pé quando o viu) ou de
desgosto.
Depois há ainda "doentes manhosos":
- "Então o Sr. bebe?"
- "Ai menina, por quem me toma... bebo às refeições"
- "Está bem. Então diga-me quantas refeições faz e o que bebe em cada uma, por favor"
- "Ora bem, um copo de vinho ao meio da manhã quando venho do campo, dois ao almoço, um bagaço com o café, dois ao lanche..."
Ia agora acabar mas lembrei-me de uns casos maravilhosos e que uma assistente que tive no ano anterior apelidava “doentes de amor”. Trata-se de pessoas que surgem no hospital com queixas variadas mas que são curadas apenas com a nossa atenção, umas festinhas nas pernas, umas auscultações meiguinhas e uma conversa calma… com amor! Enfim, um dia na enfermaria foi a cura perfeita para a nostalgia da noite de ontem… cirurgia, surpreende-me amanhã!
(antes que me "mordam", eu trato os doentes por você... mas o título ficava mais giro assim!)
MJ.