Num qualquer autocarro da Carris (não vi passadeira vermelha
nem bancos de pele… acho que com o que pago era o mínimo!):
MJ entra e escolhe o lugar. Porque é um bicho atabalhoado,
deixa cair metade do que traz com ela… um dos phones voa disparado. Enquanto organiza
a bagunça do costume, e ainda sem ter recuperado o objecto voador perfeitamente
identificado, assiste à partilha desenfreada de opiniões da passageira do banco
de trás que, se falava apenas para o marido, ai o senhor era surdo de certeza!
No alto dos seus 65 anos, com aquele cabelinho branco giríssimo e o colar de
pérolas que faria as delícias da minha irmã, desata num corrupio de partilhas: “porque
este país não tem solução. E não me venham dizer que a culpa é da troika ou do
governo porque não é. A culpa tem outro nome e ninguém quer ver. A culpa é dos
jovens deste país. Não têm nada na cabeça, não estudam, não trabalham e só
fazem greves. Uma vergonha!”.
MJ, qual “pinchavelho” de panela de pressão, rodopia no seu
banco e sopra! Está claro que, “macacos me mordam”, se passaram 3 segundos até
que me virei para trás. A ideia nunca foi ripostar verbalmente… decidi ficar-me
por um olhar altamente reprovador e quiçá maquiavélico, daqueles carregadinhos
de argumentos e que (espero eu) pesam na consciência. Sim, fui mazinha e nem o cabelo ou o fio me comoveram.

Aplaudam esta senhora! Estes
jovens de hoje em dia… uma vergonha. Foram eles, tão precoces, nas suas
alcofinhas, que tomaram as decisões políticas que nos levaram ao belo imbróglio
em que nos encontramos. Estes jovens de hoje em dia… são todos órfãos e é por
isso que cometem erros e são irresponsáveis e não estudam e são isto e aquilo. Estes jovens de hoje
em dia… têm empregos “ao pontapé”, oportunidades como nunca só que preferem
estar na praia. Estes jovens de hoje em dia… não semearam batatas e tiveram
brinquedos “xpto”! Um ultraje. Não sabem o que custa a vida? Talvez não saibam
o que custou a vida dos bisavós, dos avós ou até dos pais. Pediram para nascer
agora? Não. Não sabem o que custa a vida? Sabem o que custa uma vida diferente,
com desafios necessariamente diferentes mas necessariamente mais fáceis? Será sequer comparável? Há uma coisa que se chama respeito pelos mais velhos e que sempre foi reforçada lá em casa. Há uma coisa que se chama respeito pelos mais novos.
MJ.